Conduzir é ouro,

ser conduzidx é prata

 por Fe Squariz

 

Apesar de coordenar um projeto que traz no próprio nome a ação de conduzir: “Mulheres que Conduzem”, venho me atentando à desvalorização atual do papel dx conduzidx no recorte do forró pé de serra.
Ser conduzidx ainda hoje é uma ação diretamente associada aos papéis impostos ao gênero feminino e, consequentemente a estereótipos historicamente associados a eles, como entrega, acolhimento, adaptação, prontidão, leveza e espera. Essas qualidades demandam muito treino e sensibilidade para serem adquiridas e/ou aprimoradas e apesar de essenciais para a performance, são, de certa forma, consideradas inferiores.
Já o ato de conduzir é associado ao monopólio da genialidade e do brilhantismo, à sensação de controle, à criatividade, ao ditar ritmo, velocidade e quebras; a um lugar de poder destinado ao gênero masculino. Quem conduz uma dança é tido como uma figura universal e padrão, de quem parte o estímulo para produzir a ação do conduzido; em quem o conduzido se molda para dançar. É como se X condutorx soubesse desmistificar (ainda que de forma indireta e às vezes ilusória) a dança do conduzido. A este último, restaria saber apenas de si, já que o seu estímulo seria externo e seu movimento deveria se produzir a partir da ação do outro, reproduzindo papéis não universais, mas sim, específicos. Cria-se uma idéia de passividade, de complementaridade, de dependência de quem é conduzidx em contraposição à livre criação daquele que é o seu espelho.
Nesse contexto faz-se necessário refletir sobre a reprodução desses estereótipos. Se a dança a dois, como o próprio nome já diz, é realizada por duas pessoas e tem esta característica como sua condição para existir, por que ainda hoje há uma hierarquia de papéis entre condutor e conduzido? Por que é supervalorizado o ato de conduzir e subestimado o de ser conduzidx? Um bom condutor consegue ter uma ótima dança com um conduzidx que não domina o seu papel? E o contrário, se cumpre?
O papel dx condutxr é estudado por muitxs ainda hoje como um instrumento de poder e autonomia na dança, como se essas qualidades só pudessem ser exercidas nesse lugar específico.
Muito da credibilidade e do poder postos ao condutor também aparecem no meio profissional da dança. Quem conduz geralmente é procurado e visto como detentor de um conhecimento que o torna capaz de ensinar ambos os papéis. Já quem é conduzido (costumeiramente professoras mulheres) é tido como conhecedor apenas do seu papel e muitas vezes nem é visto como professor, mas sim assistente ou ajudante. Dessa forma nota-se que a hierarquia de papéis na dança como uma construção historicamente associada a papéis de gênero também levou a diferenciação da credibilidade dada a condutores e conduzidos nos meios profissionais da dança de salão.
A partir dessa percepção torna-se necessário buscar que a dança a dois seja um diálogo horizontal, que tenha papéis diferentes mas sem distinção de poder. Que possa ser uma ferramenta artística, criativa, e que possibilite a ambos os dançarinos a expressividade máxima de suas danças sem nenhum tipo de boicote, adestramento, ou padronização negativa dos corpos. Que a conversa e a igualdade de importância entre os papéis sejam o requisito essencial para a dança acontecer, independente de gênero, orientação sexual ou condutas pré-estabelecidas, e que essa relação de igualdade também possa ser vista no campo profissional, com mulheres tendo o mesmo número de oportunidades de estudo e trabalho e ganhando também os mesmos valores que os homens, independente do papel de condutoras ou conduzidas.

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